Archive for junho \24\UTC 2015

Edilia, ou “faça disso o que quiser” – David Harvey

junho 24, 2015

Territórios de Filosofia

Edilia, ou “faça disso o que quiser”.

David Harvey.*

Em algum momento do ano de 1888, Ebenezer Howard leu o romance utópico recém-publicado de Edward Bellamy, Looking Backward [Olhando para trás). Ele o fez de uma sentada, e viu-se. “deveras transportado” pela obra. Na manhã seguinte,

dirigi-me a algumas das partes de Londres em que se amontoava um maior número de pessoas, e, ao percorrer as estreitas ruas escuras, vi as lamentáveis habitações em que viviam a maioria das pessoas, observei por toda parte as manifestações de uma ordem da sociedade que só busca beneficiar a si mesma e refleti acerca da absoluta precariedade de nosso sistema econômico, sobrevindo-me urna sensação avassaladora da natureza temporária de tudo quanto via, e de sua completa impropriedade para a vida produtiva da nova ordem – a ordem da justiça, da unida­de e da amizade.

Howard fundiu os dois scnti111cntos. Ele se…

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O SEGUNDO SEXO 25 ANOS DEPOIS: Entrevista com Simone de Beauvoir – Simone de Beauvoir

junho 21, 2015

Territórios de Filosofia

O SEGUNDO SEXO 25 ANOS DEPOIS: Entrevista com Simone de Beauvoir.

Simone de Beauvoir.

Gerassi — Já se passaram 25 anos desde que O Segundo Sexo foi publicado. Muitas pessoas, principalmente nos Estados Unidos, o consideram o início do movimento feminista contemporâneo. Você consideraria…

Beauvoir — Acho que não. O movimento feminista atual, que começou há uns cinco ou seis anos, não conhecia realmente o livro. Posteriormente, com o crescimento do movimento, algumas das líderes tiraram parte de sua fundamentação teórica do livro. Mas não foi O Segundo Sexo que desencadeou o movimento. A maior parte das mulheres que se tornaram ativas no movimento era muito jovem quando o livro foi lançado, em 1949-50, para serem influenciadas por ele. O que me lisonjeia, é claro, foi elas o terem descoberto mais tarde. Certamente algumas mulheres mais velhas — Betty Friedan, por exemplo, que dedicou The Feminine Mystique (A…

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DELEUZE E A PÓS-MODERNIDADE – Peter Pál Pelbart

junho 13, 2015

Territórios de Filosofia

                                                                                                DELEUZE E A PÓS-MODERNIDADE.

Peter Pál Pelbart.*

Embora Deleuze nunca tenha se considerado um pós-moderno, e até tenha ficado à margem do debate sobre o assunto, é compreensível que ele por vezes seja incluído nesse espectro teórico, ou pelo menos no rol de seus inspiradores. Afinal, ele ajudou a lançar ou reativar vários dos termos que circularam entre seus arautos nas última s décadas, tais como diferença, multiplicidade, intensidade, fluxos, virtual , até mesmo simulacro… No entanto, se rastreamos a bibliografia a respeito do pós-moderno ou mesmo da pós-modernidade, seja ela filosófica, crítica ou apenas histórica, ficamos surpresos com a ausência quase absoluta de qualquer menção a Deleuze . Tome-se Jameson, Wellmer, Huyssen, Anderson, Eagleton, Harvey, Vattimo, para não falar em Habermas,[1] a omissão é tão generalizada que somos obrigados a reconhecer que, diferentemente de Lyotard, por razões óbvias, mas também de Foucault ou Derrida…

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Novo manifesto em defesa das Zeis

junho 13, 2015

nenhuma_zeis_amenosO PL 157/2015 retrocede a garantia de direito à moradia. É ilegal e antidemocrático!Ao enviar o Projeto de Lei 157/2015 para a Câmara Municipal, a Prefeitura de São Paulo sinaliza que não acredita mais nas ZEIS bem localizadas.

A mesma Prefeitura que ampliou e aperfeiçoou as ZEIS no Plano Diretor enviou para Câmara Municipal o Projeto de Lei nº 157/2015, que abre um perigoso precedente de esvaziamento do papel estratégico das Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) porque permite a troca de áreas demarcadas como ZEIS por dinheiro ou outro terreno.

E qual a importância das ZEIS?

As ZEIS foram concebidas a partir da luta pela reforma urbana para reconhecer, consolidar  e incluir assentamentos precários na cidade, transformando-se num importante instrumento de luta por terra urbanizada para moradia popular e regularização fundiária. As ZEIS evoluíram para a demarcação de áreas vazias ou subutilizadas em bairros com qualidade de vida…

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SABERES LOCALIZADOS: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial – Donna Haraway

junho 12, 2015

Territórios de Filosofia

                                                     SABERES LOCALIZADOS: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial.

Donna Haraway.*

A pesquisa feminista acadêmica e ativista tentou repetidas vezes responder à questão sobre o que nós queremos dizer com o termo, intrigante e inescapável, “objetividade”. Temos gasto muita tinta tóxica e árvores transformadas em papel para difamar o que eles queriam dizer com o termo e como isso nos machuca. O “eles” imaginado constitui uma espécie de conspiração invisível de cientistas e filósofos masculinistas, dotados de bolsas de pesquisa e de laboratórios; o “nós” imaginado são os outros corporificados, a quem não se permite não ter um corpo, um ponto de vista finito e, portanto, um viés desqualificador e poluidor em qualquer discussão relevante, fora de nossos pequenos círculos, nos quais uma revista de circulação de “massa” pode alcançar alguns milhares de…

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Estatuto da Metrópole: o gargalo do financiamento

junho 10, 2015

ilustracao_luisakon_financiamento Ilustração: Luisa Kon.

Por Henrique Botelho Frota*

Com algumas exceções, a questão do planejamento metropolitano não esteve entre as prioridades da agenda da política urbana nacional das duas últimas décadas. Embora o projeto de lei que resultou no Estatuto da Metrópole (Lei 13.089) estivesse tramitando desde 2004, não se viam manifestações do movimento de reforma urbana, de governos ou de entidades técnicas reivindicando essa pauta. Por isso, sua sanção, em 12 de janeiro passado, causou certa surpresa.

Entretanto, superado o momento inicial, é preciso compreender que novos desafios e problemas essa legislação impõe. A elaboração dos chamados Planos de Desenvolvimento Urbano Integrado até janeiro de 2018, a organização de um arranjo institucional que viabilize a governança e a efetivação de instrumentos urbanísticos como a operação urbana consorciada interfederativa são exemplos de questões ainda nebulosas. E, certamente, a lista de problemas difíceis não estaria completa sem o tópico do financiamento.

Os…

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Hume – Gilles Deleuze

junho 10, 2015

Territórios de Filosofia

Hume.

Gilles Deleuze*

SIGNIFICAÇÃO DO EMPIRISMO

A HISTÓRIA DA FILOSOFIA mais ou menos absorveu, digeriu o empirismo. Ela o definiu numa relação de inversão com o racionalismo: haverá ou não nas idéias alguma coisa que não esteja nos sentidos ou no sensível? Ela fez do empirismo uma crítica do inatismo, do a priori. Mas o empirismo sempre teve outros segredos. E são esses que Hume eleva ao mais alto grau, que exibe em plena luz, em sua obra extremamente difícil e sutil. Por isso, Hume tem uma posição muito particular. Seu empirismo é, antecipadamente, uma espécie de universo de ficção científica. Como na ficção científica, tem-se a impressão de um mundo fictício, estranho, estrangeiro, visto por outras criaturas; mas também o pressentimento de que esse mundo já é o nosso e essas outras criaturas, nós próprios. Paralelamente, opera-se uma conversão da ciência ou da teoria: a teoria torna-se inquérito

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